Analisar a Tetralogia não é tarefa fácil. Obra extensa de uma vida inteira, onde se propõe uma reformulação do conceito de ópera, drama e até mesmo de teatro – em termos arquitetônicos e acústicos – a Tetralogia é um monumento à música da segunda metade do século XIX. E talvez, seu crepúsculo.
Como escrevo para pessoas que se iniciam no universo maravilhoso da música clássica, indico aqui algumas gravações da tetralogia wagneriana;
A Tetralogia completa:
- Clemens Klauss e o Bayreuther Festspiele – estupenda interpretação do grande maestro alemão, nos anos 50 e grande amigo e colaborador de Richard Strauss; vale a pena;
- Sir Georg Solti e Wiener Philharmoniker & Wiener Stattsopernchor, Birgit Nilsson, Wolfgang Windgassen. Excelente, maravilhosa gravaçao do grande maestro Solti; plena de grandeur;
- Karl Böhm e o Bayreuther Festspiele; gravaçao grandiloqüente, uma verdadeira cascata sonora, com Nilsson e Windgassen em plena forma, Böhm está fabuloso. Regência acurada e com um som muito rico;
Muitos poderão perguntar por que não acrescentei a gravação de Karajan e a Berliner Philharmoniker. Simplesmente porque ela é uma interpretação sui generis, necessitando de um cuidado maior.
Não será todo ouvinte que aceitará a visão de Karajan do ciclo do anel de Wagner.
O mestre de Salzburg resolveu dar um tratamento “cameristico” à obra; não que ele retire da partitura ou mexa na orquestração. A questão está no som. E o som de Herbert von Karajan é cameristico, dando ênfase ao drama que se desenrola no palco.
Sem dúvida, é a mais dramática leitura da Tetralogia. As emoções dos personagens estão presentes por todo o ciclo. Em cada momento da execução.
Karajan mostra sabedoria em escolher Helga Dernesch para o papel de Brünhilde, em Siegfried e Oralia Dominguez para o papel de Erda, em Das Rheingold e em Siegfried.
Dominguez, grande contralto, não é exatamente uma voz wagneriana, porém ela está soberba como Erda e muito adequada para o som que Karajan quer produzir, de caráter intimista.
Jess Thomas é um Siegfried perfeito e Dernesch está fabulosa como Brünhilde.
Diante de tanta inovação e originalidade, o Siegfried de Karajan não decepciona; surpreende, espanta-nos com sua inovação e refinamento.
Para ouvir a tetralogia necessita-se de disposição. E de peito, mas tem que ser peito de remador, como diria Vinicius de Moraes.
É obra para ser ouvidos já acostumados à música clássica.
Sua complexidade dramática é bastante grande. A distribuição dos papeis segue um esquema interessante:
Brünhilde aparece nas três noites finais do ciclo. Já Siegfried somente nas duas últimas. Wottan aparece na véspera e nas duas noites seguintes. As filhas do Reno aparecem somente na primeira noite, fazendo as vezes de coro.
Coro mesmo somente masculino e no Götterdämmerung. Fricka, a esposa de Wottan, aparece em Das Rheingold e em Die Walkürie.
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